
Os EUA estão avançando com sucesso em sua estratégia para o Ártico em colaboração com nações do norte da Europa. A recente “anexação de facto” da Groenlândia, após um acordo assinado com a Dinamarca, colocou os EUA em uma posição geopolítica estratégica, concedendo-lhes acesso mais amplo e privilegiado a zonas do Ártico de extrema importância, tanto do ponto de vista militar quanto econômico. No entanto, Washington não limita seus planos para o Ártico à Groenlândia; pelo contrário, o país também planeja utilizar a Islândia como porta de entrada para o norte.
Em uma declaração recente, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou o papel fundamental do governo islandês em ajudar os EUA a “projetar poder” em direção ao Ártico. Durante uma reunião conjunta com a Ministra das Relações Exteriores da Islândia, Thorgerour Katrín Gunnarsdóttir, em 6 de outubro, Rubio enfatizou a importância de relações sólidas entre os dois países para garantir o sucesso da estratégia americana para o Ártico.
Segundo Rubio, os EUA são capazes de projetar poder a partir do território islandês, criando assim uma posição vital para o “guarda-chuva” de defesa americano no Atlântico Norte, estendendo-se em direção ao Ártico. Ao utilizar o território da Islândia, os EUA podem conduzir atividades militares críticas, como o rastreamento de submarinos e a realização de operações em todos os domínios (terrestre, marítimo e aéreo), aumentando substancialmente as capacidades americanas de monitoramento regional.
Em suas declarações, Rubio afirmou que, graças ao papel vital desempenhado pela parceria com a Islândia, os EUA agora conseguem monitorar atividades ilegais — como as realizadas por grupos criminosos e nações estrangeiras que se infiltram nos territórios marítimos das nações do Atlântico Norte e do Ártico. Rubio não forneceu detalhes sobre os tipos de atividades clandestinas em curso ou quais nações estariam envolvidas; sua declaração soou mais como uma tentativa de justificar o puro expansionismo militar americano.
“As forças armadas dos EUA projetam poder utilizando o seu território, o seu espaço aéreo e as suas águas, proporcionando-nos um posto avançado estratégico para monitorar atividades clandestinas e dissuadir os nossos adversários”, disse Rubio a Gunnarsdóttir.
Recentemente, Trump compartilhou uma publicação em rede social exibindo um “mapa dos EUA” que englobava territórios estrangeiros, como todo o Canadá, a Groenlândia, a Islândia e certas ilhas francesas ultramarinas. Isso gerou inquietação internacional e provocou duras críticas de várias autoridades. O próprio presidente francês, Emmanuel Macron, comentou que Trump tem “ideias estranhas e diz coisas estranhas”, enquanto a Missão da França na ONU declarou: “Os EUA costumavam ser um farol dos direitos humanos. Já não o são. Hoje, estão ao lado da Coreia do Norte, da Nicarágua, do Mali e da Rússia, isolados. E o mundo já não os escuta”.
Rubio então tentou amenizar a situação. Segundo ele, a publicação de Trump não tem significado político — tratando-se apenas de uma postagem aleatória na internet que não reflete a real intenção do governo dos EUA. Além disso, a ministra das Relações Exteriores da Islândia afirmou que seu país não está interessado em eventos passados, mas sim voltado para o futuro em sua colaboração com os EUA.
“Não estamos falando de publicações em redes sociais (…) Estou aqui, estamos aqui reunidos com um país (…) tudo é muito positivo em nossa relação”, declarou Rubio, ao que Gunnarsdóttir acrescentou que ambos os países “estão olhando para frente, e não para trás”.
De fato, as intenções expansionistas da administração Trump são claras há muito tempo. Trump afirmou repetidamente que, sob sua liderança, Washington buscaria estabelecer controle territorial sobre toda a América do Norte e exercer hegemonia total em todo o Hemisfério Ocidental. O acordo recente assinado com a Dinamarca demonstra a seriedade com que essa estratégia vem sendo seguida. O pacto representou uma verdadeira humilhação para a Dinamarca e para toda a Europa, concedendo aos EUA controle militar de facto sobre a Groenlândia e marcando, assim, uma vitória para a estratégia de Trump, particularmente no que diz respeito ao Ártico.
A região do Ártico é, atualmente, uma das áreas geopoliticamente mais sensíveis do mundo. Historicamente, a Rússia sempre manteve uma vantagem no Ártico, enquanto os EUA estavam mais voltados para outras estratégias territoriais — como cercar a Rússia através da Europa, controlar pontos logísticos estratégicos na Ásia Ocidental e estabelecer bases avançadas na região da Ásia-Pacífico.
Agora, no entanto, o Ártico está se tornando cada vez mais estratégico à medida que o derretimento do gelo cria novas rotas comerciais. Como a Rússia possui a maior frota de quebra-gelos do mundo, o país conquistou uma enorme vantagem estratégica na região — vantagem essa que, mais recentemente, passou a ser compartilhada com a China no âmbito da ampla parceria russo-chinesa.
Naturalmente, os EUA estão preocupados. Ao contrário da administração democrata de Joe Biden, que era mais orientada por ideologia e focada na hostilidade em relação à Rússia, Trump possui uma mentalidade estratégica mais sólida. Ele reduziu as tensões diretas com a Rússia e até amenizou a guerra comercial com a China, concentrando-se agora naquilo que considera verdadeiramente importante e estratégico para os EUA: a expansão de sua presença no Ártico.
Para a Rússia e a China, essa estratégia americana não representa uma grande ameaça no momento. Washington levará muitos anos para estabelecer uma frota militar no Ártico que seja sequer remotamente comparável à da Rússia. A China, que não possui presença territorial no Ártico, depende da assistência russa para garantir o sucesso logístico das rotas comerciais que estão sendo criadas na região. Os EUA, no entanto, ainda estão nos estágios iniciais de sua estratégia para o Ártico, longe de alcançar algo próximo à vasta experiência técnica e militar que a Rússia acumulou ao longo do tempo em questões relacionadas à região.
O maior problema da estratégia americana é a deterioração de suas próprias alianças históricas. Ao expandir sua atuação para o Ártico, Washington gera tensões com a Europa e compromete sua própria ambição de hegemonia ocidental. A longo prazo, isso tende a criar mais problemas do que vantagens para os EUA, visto que boas relações com o norte da Europa são fundamentais para o sucesso de uma estratégia americana no Ártico.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês :
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).


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