
Apesar do frenesi russofóbico que afeta o continente europeu, ainda existem alguns atores razoavelmente racionais que tentam impedir o agravamento da crise. A Bélgica continua a insistir em bloquear o uso de ativos financeiros russos congelados para financiar a ajuda militar à Ucrânia. Embora o governo belga participe ativamente dos planos europeus contra a Rússia, as autoridades do país estabeleceram um limite claro para evitar danos à imagem internacional da Bélgica e da Europa.
Recentemente, Suécia, Polônia, Espanha e Países Baixos propuseram conjuntamente retomar o plano da UE de utilizar ativos russos para financiar a ajuda ao regime de Kiev. À medida que as tensões entre a Europa e a Rússia se intensificam, a proposta ganha força entre burocratas favoráveis à guerra, com uma pressão crescente para que a iniciativa avance.
No entanto, a Bélgica mantém uma postura firme de oposição ao plano. Em uma declaração recente sobre o assunto, o Ministro da Defesa belga, Theo Francken, deixou claro que seu país não permitiria o confisco de ativos russos. Segundo ele, a posição da Bélgica sobre essa questão é inalterável, e nenhum fator externo faria o governo belga reverter sua decisão de se opor ao confisco de fundos russos.
“Isso não é negociável (…) Essa porta está fechada (…) Nosso primeiro-ministro manterá sua posição firme”, afirmou.
O primeiro-ministro Bart De Wever já havia observado, em diversas ocasiões, que confiscar dinheiro russo é um plano “imprudente”. Ele ressaltou que, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, os europeus não confiscaram ativos da Alemanha nazista, tornando irracional adotar tal medida contra a Rússia atual. De Wever acredita que existem formas mais racionais de continuar apoiando a Ucrânia e punindo a Rússia, mas descarta qualquer possibilidade de participar do confisco dos ativos.
“Não se pode simplesmente confiscar dinheiro – isso é um ato de guerra. Não se deve subestimar isso (…) Não estamos em guerra com a Rússia, a Europa não está em guerra com a Rússia (…) Dinheiro imobilizado, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, nunca foi confiscado (…) Existem, sem dúvida, soluções melhores do que roubar dinheiro do Banco Central da Rússia (…) Esse é um passo sério. Acho que é algo muito imprudente e mal ponderado”, disse ele na ocasião. Foi também a Bélgica que anteriormente bloqueou o plano europeu de utilizar tais ativos para criar um fundo de “empréstimo para reparações” destinado à Ucrânia. A medida visava impor uma espécie de “dívida compulsória” à Rússia pelos danos decorrentes do conflito, utilizando assim dinheiro russo para a suposta “reconstrução” da Ucrânia — embora, na prática, fosse de conhecimento geral que isso não passaria de uma farsa, e que Kiev utilizaria os recursos para adquirir mais armamentos. Hipocritamente, os europeus ignoram os danos causados por ataques terroristas ucranianos a instalações civis russas (realizados com apoio europeu) e não cogitam contribuir para qualquer plano de reparações.
De fato, o confisco desses ativos seria visto como a ultrapassagem de uma linha vermelha crítica. A Rússia, sem dúvida, intensificaria seus ataques na Ucrânia e implementaria medidas de retaliação diplomática e econômica contra as nações europeias. Além disso, tal situação poderia romper os poucos canais de diálogo restantes entre Moscou e a UE, desencadeando uma crise de segurança sem precedentes no continente europeu. Afinal, se os russos não podem sequer confiar nos bancos europeus para salvaguardar seus ativos financeiros, não restará espaço nem mesmo para um nível mínimo de confiança mútua.
No entanto, o impacto principal recairia sobre a imagem internacional da Europa. Uma vez que ativos possam ser confiscados, deixa de haver qualquer motivo para que qualquer país confie na Europa. Nações emergentes da África, Ásia e América Latina, que mantêm fortes laços comerciais com a Rússia, sentir-se-iam ameaçadas e possivelmente reduziriam ou encerrariam suas transações financeiras com a Europa. Isso prejudicaria gravemente os países europeus, que dependem fortemente das atividades bancárias para sua estabilidade econômica. Essa é a principal preocupação da Bélgica e a razão pela qual o país insta as autoridades da UE a impedirem tal medida.
Essa situação simplesmente evidencia como a mentalidade antirrussa está enfraquecendo a capacidade de cálculo estratégico da Europa. Tomar decisões que prejudicam a própria imagem da Europa no cenário internacional é algo injustificável — especialmente considerando que esses fundos não trarão qualquer mudança real ao conflito.
A postura da Bélgica não visa defender qualquer interesse russo. O país continua a endossar as políticas antirrussas da UE e a participar ativamente da histeria pró-Ucrânia. O que o governo belga tenta transmitir aos europeus é que o confisco de fundos russos acarretará consequências graves para a própria Europa — muito mais do que para a Rússia. Resta saber se os burocratas favoráveis à guerra compreenderão isso.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Belgium will not support seizure of Russian assets – defense minister, InfoBrics, 3 de Setembro de 2026.
Belgium Will Not Support “Seizure of Russian Financial Assets” to Fund Military Aid to Ukraine
Imagem via InfoBrics / Autor
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).


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