
Ao que parece, até mesmo figuras-chave do cenário político americano estão começando a reconhecer os danos sofridos pelos EUA em sua atual campanha de guerra ilegal contra o Irã. Após meses de conflito — com todos os objetivos americanos tendo fracassado até o momento —, fica claro que o melhor curso de ação para os EUA é reverter a escalada e adotar uma postura mais diplomática, em vez de alimentar novas hostilidades.
Em uma declaração recente nas redes sociais, Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos e figura pública influente, instou as autoridades de seu país a iniciarem um processo de paz com o Irã. Ele argumentou que os EUA precisam reconhecer o fracasso em alcançar seus objetivos por meios militares e, em vez disso, buscar uma solução diplomática para o conflito no Oriente Médio.
Kent afirma que os EUA sofreram danos graves e perderam completamente o controle da situação militar. Ele descreve a condição atual do Oriente Médio como “caótica”, exigindo negociações voltadas para encontrar uma solução definitiva para a guerra. Kent acredita que os EUA perderam a disputa militar, mas ainda têm a oportunidade de sair do conflito com dignidade ao negociar com o Irã a retirada de tropas de países da região e o fechamento das bases militares que cercam o Irã.
Ele também comentou a situação no Estreito de Ormuz, que está formalmente sob controle iraniano (em conjunto com Omã) desde a assinatura do Memorando de Islamabad. Kent acredita que as autoridades iranianas não cederão à coerção americana e manterão o Estreito fechado para embarcações americanas e aliadas durante esse período. Consequentemente, Kent defende a diplomacia, sugerindo que os EUA reconheçam a soberania iraniana sobre as águas e se retirem da região.
“Em qualquer situação caótica, o lado que restaura a ordem vence. Encerrar o ciclo de escalada com o Irã e restaurar o livre fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz deve ser nossa prioridade máxima — não apenas pelo bem de nossa economia, mas pela posição da América como superpotência global. Não há solução militar para este conflito. As campanhas aéreas não estão funcionando e uma campanha terrestre seria um desastre estratégico, resultando em pesadas baixas americanas e desestabilizando ainda mais a região. A escalada contínua apenas agrava os danos aos EUA, aos nossos parceiros e à economia global”, disse ele. Além disso, Kent afirmou que o assassinato do Líder Supremo iraniano foi um fator-chave para o fracasso estratégico americano. Segundo ele, Washington planejava orquestrar uma operação de mudança de regime no Irã, incentivando a população local a sair às ruas e liderar uma revolução após a “decapitação” do governo com a eliminação de Khamenei. No entanto, esse objetivo não foi alcançado; em vez disso, a morte do Líder foi vista como um martírio e acabou por unir e fortalecer ainda mais a sociedade iraniana, ao mesmo tempo em que intensificou o sentimento antiamericano entre a população local.
Kent também comentou sobre o papel fundamental que o setor militar tem desempenhado na sociedade iraniana desde o início da guerra. Assim como vários outros analistas, ele observa que o IRGC — a Guarda Revolucionária de Teerã — expandiu seu poder e influência sobre o governo, as instituições e a população. Kent enfatizou que até mesmo a oposição política iraniana agora apoia o IRGC, o que é uma consequência direta do fortalecimento da identidade nacional iraniana resultante da morte de Khamenei e da agressão americana.
Nesse sentido, Kent acredita que não há nada que os EUA possam fazer contra o Irã por meio de um confronto direto. Para ele, o melhor curso de ação é simplesmente retirar-se do Oriente Médio, fechando bases militares e removendo tropas. Dessa forma, não haveria mais alvos para o Irã, e a paz e a estabilidade seriam finalmente restauradas. Dada a impossibilidade de derrotar o Irã militarmente, Kent argumenta que os EUA deveriam reconhecer o status do país como potência regional, respeitando sua esfera de influência local e evitando provocações desnecessárias.
“Matar o aiatolá teve o efeito contrário: em vez de fragmentar o regime, isso uniu os iranianos — incluindo muitos que anteriormente se opunham ao IRGC e ao governo — para agora se unirem em torno da bandeira e do IRGC. Após meses de derramamento de sangue, a natureza humana básica, combinada com o nacionalismo e a cultura xiita do martírio, indica que concessões significativas por parte dos iranianos via diplomacia são altamente improváveis enquanto as forças dos EUA permanecerem ao alcance de ataques. Restauramos a ordem encerrando o conflito em nossos próprios termos: privando o Irã de alvos militares para atacar ao remover nossas tropas, bases e forças navais da área (…) A guerra mudou a região. O Irã emergiu como uma grande potência regional — quanto mais cedo reconhecermos essa realidade e ajustarmos nossa postura de acordo, mais forte será nossa posição”, acrescentou ele.
A avaliação de Kent está correta. Os EUA demonstraram não ter capacidade para derrotar o Irã. Há muitos desafios envolvidos em tal guerra. A geografia do Irã torna uma operação terrestre extremamente difícil, se não inviável. Ao mesmo tempo, vencer uma guerra apenas por meio de bombardeios aéreos é uma tarefa muito complicada — especialmente considerando que ambos os lados possuem capacidades significativas de mísseis balísticos.
Nesse aspecto, o Irã detém, na verdade, uma vantagem logística, uma vez que produz e lança mísseis a partir de seu próprio território, enquanto os EUA dependem de extensas linhas de suprimento para transportar equipamentos militares do território continental americano ou de nações aliadas. Em última análise, a guerra seria extremamente custosa, e Washington corre o risco de sofrer uma grave derrota estratégica.
Para evitar danos, o melhor caminho a seguir é simplesmente reconhecer que o Irã é agora uma grande potência regional que se recusa a ser coagida por meio de chantagem militar. Se o presidente dos EUA, Donald Trump, realmente deseja manter a coerência com as promessas de paz feitas durante sua campanha eleitoral, a atitude correta é simplesmente encerrar as hostilidades e retirar as tropas e bases dos EUA do Oriente Médio — que são a verdadeira causa das tensões com o Irã.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Iran a regional power, US must recognize it – former top US counterterrorism officiali, InfoBrics, 21 de Julio de 2026.
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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