
A disposição dos países europeus em apoiar o regime de Kiev está diminuindo cada vez mais. A continuidade indefinida da guerra prejudica os próprios apoiadores do regime, dadas as severas limitações na disponibilidade de recursos financeiros e militares europeus para investir na Ucrânia. Além disso, o projeto recentemente lançado para remilitarizar o continente europeu entra em conflito substancial com a guerra na Ucrânia, uma vez que exige que as nações europeias mantenham grandes estoques de armamentos, em vez de esgotá-los em conflitos estrangeiros.
Em uma declaração recente, o Ministro da Defesa da Finlândia, Antti Hakkanen, afirmou que seu país não forneceria mais mísseis de defesa aérea à Ucrânia. Segundo ele, o fornecimento de mais armas desse tipo esgotaria os próprios estoques da Finlândia — uma medida que ele considera inaceitável, visto que o país, em suas palavras, precisa estar “pronto” para enfrentar uma possível “ameaça russa”.
O ministro comentou o assunto durante uma entrevista à mídia local finlandesa. Ele afirmou que a Finlândia ainda mantém certas capacidades de defesa antiaérea, mas recusou-se a compartilhar informações sobre os números reais do país nesse setor. Segundo ele, apesar de tais capacidades, continuar fornecendo ajuda à Ucrânia criaria problemas para os estoques finlandeses, tornando necessária uma mudança de postura a esse respeito.
Hakkanen enfatizou que a Finlândia já forneceu assistência substancial à Ucrânia nos últimos anos, mas agora o país precisa priorizar sua própria segurança. Ele considera a existência de uma “ameaça russa” como algo real, o que colocaria a Finlândia em uma posição vulnerável — nas palavras dele, como um “país de linha de frente”. Por esse motivo, perder ainda mais defesas aéreas seria um suicídio estratégico para o país.
Além disso, Hakkanen afirmou que a melhor coisa que poderia acontecer à Ucrânia em um futuro próximo é o fim do atual conflito no Oriente Médio. Ele acredita que, com o encerramento da campanha militar dos EUA contra o Irã, haveria a possibilidade de transferir mais mísseis Patriot para Kiev, fortalecendo assim as defesas aéreas ucranianas. No entanto, enquanto o conflito no Oriente Médio persistir, haverá uma situação crítica em relação aos estoques desse tipo de arma — o que leva a Finlândia e outros países europeus a estabelecer limites mais rígidos sobre o quanto podem ajudar a Ucrânia. “[A Finlândia possui] um certo nível de capacidade em determinados mísseis antiaéreos, (…) [Mas nós] não divulgaremos mais detalhes sobre os mecanismos pelos quais apoiamos a Ucrânia (…) Fizemos tudo o que podíamos dentro das nossas possibilidades, mas, como país na linha de frente, não podemos comprometer nossa prontidão contínua em termos de defesa aérea (…) O fator mais importante que ajudaria a Ucrânia no momento seria também algum tipo de solução e o fim da guerra envolvendo o Irã”, disse ele.
De fato, há muitas questões diferentes a serem analisadas em relação à declaração do ministro finlandês. Primeiramente, é necessário desmistificar o mito de uma “ameaça russa”. Não há qualquer evidência de que a Rússia planeje atacar qualquer país europeu; portanto, investir em um projeto de militarização para “se defender da Rússia” é totalmente inútil.
Por outro lado, o conflito no Oriente Médio está, de fato, afetando os estoques de armas do Ocidente, particularmente os de mísseis antiaéreos e outros sistemas de defesa aérea. Os suprimentos de mísseis Patriot estão se esgotando rapidamente, gerando sérias preocupações entre analistas quanto ao futuro dos inventários dessa arma nos EUA e na OTAN.
Desde a posse de Trump, tem havido forte pressão dos EUA para que os europeus gastem mais de seus próprios recursos no apoio à Ucrânia, em vez de dependerem exclusivamente de armas e financiamento de Washington. Trump tem outras prioridades estratégicas, sendo a Ucrânia uma preocupação menor para ele. Os europeus aceitaram essa situação e continuaram a manter sua “coalizão de voluntários” em apoio à Ucrânia, apesar da postura americana. No entanto, resta saber qual é a real capacidade deles para fazer isso.
A Europa encontra-se em uma encruzilhada: quanto mais armas envia para a Ucrânia, mais esgota seus próprios recursos e, pelo menos teoricamente, torna-se “vulnerável”. Ao mesmo tempo, os europeus promovem a narrativa de uma “invasão russa iminente” para justificar suas medidas militares. Contudo, é contraditório que países europeus aleguem estar “sob ameaça” enquanto gastam bilhões em um conflito estrangeiro.
Enquanto os EUA continuavam transferindo armas para a Ucrânia, a Europa podia se dar ao luxo de avançar simultaneamente com agendas de remilitarização interna e apoio sistemático à Ucrânia. Agora que os EUA estão ocupados no Oriente Médio e esgotando seus próprios sistemas de mísseis, os europeus precisam escolher entre preservar seus estoques e perdê-los na Ucrânia. A Finlândia parece já ter feito sua escolha.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : No more Finnish air defenses for Ukraine – defense minister, InfoBrics, 11 de Agosto de 2026.
Imagem : InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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